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Imagina florestas comestíveis espalhadas pelo Brasil

O sistema combina árvores, arbustos, plantas herbáceas e animais de forma integrada e sustentável

As florestas comestíveis têm ganhado popularidade como uma abordagem inovadora e sustentável para a produção de alimentos. Este modelo agrícola, inspirado nos ecossistemas naturais, combina árvores, arbustos, plantas perenes e anuais de forma a imitar a estrutura e a função de uma floresta natural, enquanto fornece uma variedade de alimentos para consumo humano. São sistemas agroflorestais projetados para imitar ecossistemas naturais, planejados para serem autossustentáveis, promovendo a biodiversidade e a produção de alimentos sem a necessidade de desmatamento. Ao integrar diferentes camadas de vegetação, desde árvores altas até plantas rasteiras, as florestas comestíveis criam um ambiente equilibrado que favorece a saúde do solo e a resiliência climática.

Esses ecossistemas utilizam princípios da permacultura, que enfatizam o uso eficiente dos recursos naturais e a minimização de resíduos. A permacultura é a filosofia de trabalhar com, e não contra, a natureza, de observação prolongada e reflexiva, em vez de trabalho prolongado e inconsciente, de entender as plantas e os animais em todas as suas funções, ao invés de tratar as áreas como sistemas monoprodutivos. Um sistema que deixa de lado os monocultivos e a sobre-exploração da terra, o que, no fundo, não só significa um empobrecimento gradual do solo, mas também acaba com a fauna típica local. Os ecossistemas como as florestas comestíveis são caracterizados por cultivos perenes e de baixa manutenção, nas quais as próprias plantas se misturam, dando maior riqueza à terra e aumentando a biodiversidade.

As florestas comestíveis são uma alternativa viável para a agricultura convencional, oferecendo uma solução sustentável para a produção de alimentos em harmonia com a natureza. O sistema oferece uma série de benefícios ambientais e sociais. Em primeiro lugar, elas contribuem para a regeneração do solo, melhorando sua estrutura e fertilidade através da decomposição de matéria orgânica e da atividade de microrganismos. Além disso, esses sistemas aumentam a biodiversidade, proporcionando habitat para uma variedade de espécies de plantas e animais.

As florestas permitem que água de boa qualidade, energia
e alimento saudável cheguem até você

Do ponto de vista da segurança alimentar, as florestas comestíveis são uma fonte diversificada de alimentos, incluindo frutas, castanhas e vegetais, reduzindo a dependência de monoculturas e aumentando a resiliência dos sistemas alimentares frente a mudanças climáticas e pragas. A produção perene também garante colheitas contínuas ao longo do ano, promovendo a estabilidade alimentar.

Os princípios básicos das florestas comestíveis

  1. Diversidade de espécies: As florestas comestíveis são caracterizadas por uma grande diversidade de espécies vegetais, incluindo árvores frutíferas, arbustos, ervas e vegetais perenes e anuais. Essa diversidade aumenta a resiliência do sistema ecológico, reduzindo a suscetibilidade a pragas e doenças e promovendo a estabilidade do ecossistema.
  2. Estratificação vertical e horizontal: As plantas são organizadas em diferentes camadas, imitando a estrutura de uma floresta natural. Árvores altas fornecem o dossel, enquanto arbustos, plantas rasteiras e trepadeiras ocupam os estratos inferiores. Essa estratificação maximiza o uso do espaço e recursos, otimizando a captura de luz solar e a captação de água e nutrientes.
  3. Ciclagem de nutrientes e cobertura do solo: A decomposição de matéria orgânica proveniente de plantas mortas e de resíduos vegetais fornece nutrientes essenciais para o solo. Além disso, a cobertura permanente do solo com vegetação impede a erosão, retém a umidade e promove a saúde do solo, reduzindo a necessidade de adubação química e irrigação.
  4. 4. Integração de culturas e sucessão natural: o sistema busca replicar os processos de sucessão natural observados em ecossistemas naturais, onde diferentes espécies vegetais crescem e se desenvolvem em diferentes estágios de maturidade. Isso permite uma colheita contínua ao longo do ano e promove a estabilidade do sistema.
A FAO estima que mais de 5 bilhões de pessoas ao redor do mundo usam
produtos florestais e não-madeireiros para alimentação, medicina e meios de subsistência

Benefícios

Planejando e implementando um sistema agroflorestal sustentável, a floresta comestível

O planejamento de uma floresta comestível começa com a busca por orientação técnica de um engenheiro florestal. Deve-se levar em conta a análise do local, considerando fatores como clima, solo e disponibilidade de água. É essencial escolher espécies de plantas que sejam adequadas às condições locais e que possam coexistir de forma harmoniosa, mesmo exóticas, desde que já plenamente adaptadas às condições locais como algumas frutíferas. A diversidade de espécies é crucial para criar um ecossistema equilibrado e produtivo.

Consorciação de plantas de diferentes estratos. Além de fornecer comida, combustível,
renda e emprego, as florestas sustentam a fertilidade do solo, protegem os recursos hídricos e
oferecem habitats para a biodiversidade, incluindo espécies polinizadoras
Ilustração: Maria Rute Pereira da Costa, adaptado de Hemenway
Ilustração mostra o aproveitamento do solo com as diferentes
espécies de plantas para diferentes estratos florestais

A escolha dessas espécies é fundamental para o sucesso da floresta comestível. Algumas das melhores opções incluem árvores frutíferas como a mangueira, pitangueira e a goiabeira, que oferecem frutas nutritivas e são adaptáveis a diferentes climas. Arbustos como a amora, framboesa e muitas frutíferas silvestres nativas são ideais para preencher camadas intermediárias, enquanto plantas herbáceas como o inhame e a cúrcuma podem ser cultivadas no solo.

Além disso, é importante incluir plantas fixadoras de nitrogênio, como o feijão-guandu, que ajudam a enriquecer o solo e melhorar a fertilidade. A diversidade de espécies não só aumenta a produtividade, mas também fortalece a resiliência do sistema contra pragas e doenças. Inclua espécies arbóreas nativas de diferentes estágios de sucessão ecológica (pioneiras, secundárias e clímax), formando um conjunto com frutíferas, floríferas e melíferas (servem de alimentação apícola) e, sempre lembrando da questão conservacionista, as espécies ameaçadas de extinção. Planeje a aquisição ou a produção das mudas, estabeleça o layout e estruturação considerando a estratificação vertical e horizontal otimizando o uso do espaço e dos recursos disponíveis, o preparo e melhoria do terreno (muitas vezes pode envolver técnicas de compostagem, adição de matéria orgânica e correção de pH), as operações de plantio, controle de formigas cortadeiras e posterior manutenção nos primeiros anos como controle de plantas invasoras, irrigação especialmente durante períodos de seca, manejo integrado de pragas e doenças. A manutenção das florestas comestíveis envolve práticas como poda seletiva para controlar o crescimento das plantas e garantir a entrada de luz solar, além da adição de matéria orgânica para enriquecer o solo. Por isso a orientação técnica é muito importante.

Implantando uma floresta comestível
Elas são essenciais para a sobrevivência de comunidades que dependem das matas, particularmente
os povos indígenas, e contribuem para a mitigação das mudanças climáticas ao armazenar carbono

Selecionadas as espécies, o próximo passo é organizar o plantio imitando ao máximo a estrutura de uma floresta natural. Isso significa saber distribuir no terreno as árvores altas, arbustos, plantas herbáceas e vegetação rasteira, sempre lembrando da sucessão ecológica (pioneiras, secundárias e clímax). A implementação deve ser feita de forma gradual, permitindo que o sistema se desenvolva e se ajuste ao longo do tempo.

Esse tipo de floresta desempenha um papel crucial na promoção da biodiversidade, criando habitats para uma ampla gama de espécies de plantas e animais. Ao imitar a estrutura de uma floresta natural, esses sistemas oferecem abrigo e alimento para polinizadores, aves e muitos outros organismos, como cogumelos comestíveis nativos (o Brasil tem até o momento, 86 espécies de cogumelos comestíveis nativas identificadas 86, com registro confiável, mas o número total pode chegar a mais de 400 espécies), contribuindo para a saúde do ecossistema. Além disso, essas florestas são altamente resilientes às mudanças climáticas. A diversidade de espécies e a estrutura em camadas ajudam a regular o microclima, protegendo o solo da erosão e conservando a umidade. Isso torna esses sistemas mais capazes de resistir a eventos climáticos extremos, como secas e tempestades, garantindo a continuidade da produção de alimentos.

Alguns cogumelos silvestres comestíveis encontrados no Brasil – a Arachnion album;
b Auricularia brasiliana; c Auricularia cornea; d Auricularia fuscosuccinea;
e Auricularia tremellosa; f Boletinellus rompelii; g Boletus edulis; h Bresadolia paradoxa;
i Cantharellus guyanensis; j Clavulinopsis laeticolor; k Collybia sordida; l Cookeina colensoi;
m Cookeina tricholoma; n Cookeina venezuelae; o Coprinellus radians; p Coprinus comatus;
q Cotylidia aurantiaca; r Cymatoderma dendriticum; s Dactylosporina steffenii; t Favolus brasiliensis
Foto: Mariana P. Drewinski

Desafios na implantação

As florestas geralmente levam vários anos para atingir sua plena maturidade e produtividade, exigindo um compromisso de longo prazo por parte dos agricultores e proprietários de terras. O investimento inicial em materiais, plantas e mão de obra pode ser significativo, embora os custos operacionais possam ser reduzidos a longo prazo com a adoção de práticas sustentáveis.

Dependendo da localização da floresta a ser implantada, numa propriedade com acesso controlado é uma coisa mas numa área urbana é outra complemente diferente, a implantação exigirá formas de ação diferente. Numa área rural, o proprietário terá de se preocupar com cercamento para evitar o avanço dos animais de criação sobre a floresta. Já numa área urbana será preciso envolver a comunidade local e educar sobre os benefícios das florestas comestíveis, superando possíveis resistências e criando apoio para projetos futuros. É importante promover a compreensão dos princípios ecológicos subjacentes das florestas comestíveis o que pode ajudar a construir uma conexão mais profunda entre as pessoas e a terra, incentivando práticas agrícolas mais sustentáveis.

Superar esses desafios requer compromisso, planejamento cuidadoso e resiliência, mas os benefícios ambientais, sociais e econômicos a longo prazo geralmente justificam o esforço investido. Com a abordagem certa e o apoio da comunidade, as florestas comestíveis têm o potencial de transformar a paisagem agrícola e urbana e contribuir para um futuro mais sustentável e regenerativo.

Floresta comestível em desenvolvimento numa área rural

Os benefícios das florestas comestíveis nas áreas urbanas

Há várias razões pelas quais florestas comestíveis nos parques e entornos das cidades seriam benéficas:

As florestas comestíveis reforçam a renda das famílias, permitindo o acesso a
alimentos nutritivos e dietas diversificadas, especialmente para os mais pobres
As florestas comestíveis urbanas podem tirar partido das características dos ecossistemas urbanos
e das diferentes oportunidades ambientais e paisagísticas que o meio urbano oferece. Nas
grandes áreas da estrutura verde urbana e periurbana podem implementar-se florestas
comestíveis em larga escala. São essenciais para enfrentar os múltiplos desafios enfrentados
pelas cidades modernas, incluindo a segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental e o envolvimento comunitário

As florestas e os sistemas agroflorestais raramente são levados em consideração nas políticas de segurança alimentar e uso da terra. Muitas vezes, a população rural não tem direito de garantir o acesso às florestas e árvores, colocando em risco sua segurança alimentar. Mas as florestas comestíveis são uma tendência que se enquadra no interesse de melhorar a nutrição do mundo, respeitando e melhorando o meio ambiente.

As florestas comestíveis representam uma alternativa promissora e sustentável para a produção de alimentos, integrando os princípios da agroecologia e da permacultura para criar sistemas agrícolas resilientes e diversificados. Elas podem ser adaptadas a diferentes climas e regiões, permitindo que pessoas ao redor do mundo cultivem alimentos de forma sustentável. Com a crescente conscientização sobre os desafios ambientais e sociais associados à agricultura convencional, as florestas comestíveis oferecem uma visão inspiradora de como podemos nutrir o planeta de maneira regenerativa e harmoniosa. As florestas comestíveis representam uma alternativa viável e sustentável para a produção de alimentos, promovendo a conexão entre seres humanos e natureza.

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